15 jan 2021

Resenha – A Garota no Trem.

 

É na plataforma de embarque, rumo a Londres que conhecemos nossa personagem principal, Rachel. Por meio das janelas do trem, vemos sua transformação de espectadora à participante ativa da história que ela mesma assistia. Se pelas janelas, a história de Janson e Jess parecia perfeita, é desembarcando em Whitney que os fantasmas de seu próprio passado e as ilusões do presente se encontram.

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Título Original: The girl on the train. Autor: Paula Hawkins.
Editora: Record. Páginas: 378. Ano de Publicação: 2015.
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Com o desaparecimento de Jess somos confrontados com questões, quem, como e por quê? A história atual é contada pela narrativa de Rachel e da atual mulher de seu ex-marido, Anna. A história passada é contada por Megan, a personagem que Rachel havia batizado como Jess. Entre taças de vinho e tônicos alcóolicos sentimos empatia, mas também desconfiança de Rachel. Uma mulher cujo passado amargo havia a transformado em uma sombra de si mesma. Seria a narrativa dela confiável? Até que ponto a obsessão pelo seu ex-marido poderia comprometer o curso da história?

Se na casa 23, a prioridade de Anna é sua filha, é também o temor de se encontrar com o passado que escreve sua história. Um dia, poderia ela encontrar a paz que tanto almeja? A culpa e o arrependimento pela traição não são preocupações de Anna. Através das janelas de Anna, Rachel é instável e desequilibrada. Ao oposto, Anna é vaidosa e confiante, talvez em excesso. Tom, seu marido, é um bom pai e tolerou todas as cenas de Rachel até onde conseguiu.
Poderíamos culpá-los pela traição?

Se para a passageira do trem, a casa 15, parece a vida perfeita, de perto Megan parece perturbada, em busca de uma felicidade inatingível. O que tanto lhe perturba? Seria sua beleza apenas uma máscara? Scott seu marido parece fazer o possível para que Megan seja feliz. Até certo ponto o paternalismo e dedicação parecem de fato, perfeitos. No entanto há algo a mais. Um limiar tênue entre o cuidado e o excesso. Para Kamal, psicólogo de Megan, indícios de um relacionamento abusivo. Mas a relação paciente e médico também não encontra fronteiras e rapidamente se transforma em mais do que isso.

O ponto central é que não podemos confiar em ninguém e ao término do livro isso se torna particularmente evidente. Incomoda o fato de que, pelo menos no início, não conhecemos realmente os personagens. Talvez pensemos conhecê-los, mas o que vemos são apenas relatos tendenciosos e impressões nada sóbrias da janela de um trem. Entre o alcoolismo de Rachel, a calma e o autocontrole de Kamal e a explosão de força que é Scott, nada soa confiável.

“A garota do trem” foi número um em vendas na Inglaterra e nos Estados Unidos. Segundo o New York Times é o livro “mais desestabilizante e agradável desde Garota Exemplar” de Gillian Flynn. Não é de se surpreender que um ano depois, em 2016, já seria lançado o filme. Em um universo predominantemente masculino, e diga-se de passagem misógino, é reconfortante embarcar com mulheres em um enredo repleto de suspense, do começo ao fim. Embora as cenas finais possam parecer pouco naturais, não é algo que comprometa a qualidade da leitura.

Leia também a resenha de A Paciente Silenciosa.

São quase 400 páginas que manterão seus olhos abertos e sua mente repleta de dúvidas. Há algo de sutil e profundo em ambientar a história em um local e contexto tão familiar a maior parte das pessoas, de todo o mundo. Estamos em Londres e sua periferia, mas poderia ser Hong Kong, Nova Iorque ou São Paulo. A sensação de retorno para casa após um longo dia de trabalho é agradável, mas ao mesmo tempo, perturbadora. É Rachel quem está sentada no
vagão do trem, mas poderia ser eu, poderia ser você. Nessa vida todos somos passageiros de um mesmo trem. Carregamos conosco o bilhete de volta, sem saber o dia e a hora do embarque.

Aqui o embarque é feito de segunda à sexta, às 8:04 h e às 17:56 hrs. Aqui é Paula Hawkins quem conduz a viagem. Garanto que até o desembarque há um trajeto sinuoso e surpreendente, do qual vale a pena ser espectador pelas janelas do trem.

8 Comentários

  • Meus amigos, que resenha! Eu, que já nem sou fã de suspenses, estou curiosíssima para ler esse livro que até então tinha me chamado zero atenção (tanto é que nem vi o filme). Não sabia que havia tanta tensão e que o enredo envolvia tantas subtramas. Imaginava que fosse algo mais “bobo”. Mas não! Parece envolvente e complexo (mesmo que o final estrague um pouco, o que não sei se é exatamente o caso), já que trabalha relações bastante conturbadas. Vou colocar agora mesmo na listinha. Abs!

  • Menina, eu amo thriller psicológico, mas sinceramente, eu não consegui definir o que sentir desse livro. Se a ideia da autora era exatamente deixar a gente com ranço dos personagens, ela conseguiu comigo. Pois não tem um personagem que eu tenha salvaria desse livro. A autora conseguiu retratar tão bem o quão podre podemos ser por dentro, que deu até medo, viu? Você resumiu meus sentimentos com relação a narrativa não confiável e nada sóbria da parte da Rachel. Fora que fiquei com um ranço muito grande da Megan com a vaidade excessiva dela. E fiquei com medo real de quantos Tom’s existem nesse mundo. Enfim, é um livro que precisa mesmo de muito estômago para ler e se preparar para um livro que pode parecer nojento em muitos aspectos de nossa sociedade. Mas que ainda assim, não tem como largar, porque ele parece ter uma mágica que te prende até o final.
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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  • Eu ainda não li esse livro, embora seja o tipo de livro que eu amo, mas já assisti o filme e gostei bastante. Quero assistir novamente esse ano.

  • Desejo demais ler essa obra, já faz um tempo, mas ainda não tive oportunidade. Ela parece ter uma história intensa e surpreendente, não espero a hora de começar.

  • Essa é a primeira vez que leio algo sobre esse livro por uma perspectiva que me chamou atenção pra esse enredo. E também acho algo reconfortante embarcar com mulheres em um enredo repleto de suspense em um universo predominantemente masculino e igualmente misógino. Muito bacana conhecer mais a respeito.

  • Oi, tudo bem? Lembro que na época em que o livro foi lançado li muitos elogios e realmente uma história muito envolvente. O que mais gosto em livros do gênero é como podemos criar teorias, imaginar quem são os culpados e torcer pelos personagens que mais gostamos. Quando assisti o filme pela primeira vez confesso que não entendi, mas da segunda vez alguns pontos ficaram mais claros. Essa questão de ‘tomar conta’ da vida dos outros, de ser coadjuvante da própria vida é algo presente em muitas pessoas. Nem sempre conhecemos bem aqueles que nos cercam não é mesmo? Um abraço, Érika =^.^=

  • Olá, moça. Eu adoro histórias de suspense e afins. Desde a primeira vez que ouvi falar desse livro fiquei muito a fim de ler, amo viagens de trem, e costumo ficar observando os outros passageiros, as estações, o movimento lá fora… Poderia ser eu voltando pra casa hahaha
    Então, acho que vai ser uma trama que vai me deixar muito empolgada, imersa nas páginas…
    Tschüss 😘

  • lembro que quando a obra lançou eu era muito curiosa para ler, com o tempo fui perdendo esse animo mas cada resenha que leio dele ficou meio curiosa e meio receosa, com a sua tive esse sentimento, de quero e não quero ler kkk.


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